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Amor e ódio pelo departamento de som

Meu primeiro contato com o departamento de áudio em um meio audiovisual foi na faculdade de cinema. Já havia me encantado pela fotografia, caminho que segui posteriormente, mas mesmo assim toda estrutura de desenvolvimento de um conceito sonoro, muitas vezes, similar ao desenvolvimento de um conceito fotográfico que some a narrativa em questão, sempre me encantou. As grandes diferenças entre os dois meios me gerou um sentimento de inveja em um primeiro momento.

Quando comecei a trabalhar com cinema, ainda na faculdade, pegava todos os tipos de trabalhos. Comecei no departamento de maquinária. Ao final de um dia filmando sempre que o técnico de som passava por mim sentia, de forma realmente genuína, vontade de esfola-lo. Eu, dentro de um baú de caminhão quente, arrumando os equipamentos, em sua maioria pesados, e o técnico de som mencionado anteriormente com uma maleta, e nela todos os seus instrumentos de trabalho. Tomado por uma ingenuidade de um principiante no mercado chegava a achar que aquilo era uma coisa menor, o que posteriormente mostrou-se um grande equivoco.

Conforme fui crescendo e outras oportunidades foram surgindo cheguei ao departamento de elétrica, onde fiquei boa parte da minha carreira; Departamento este ao qual sou muito grato, pois considero ter aprendido nele algumas das habilidades mais importantes para um fotógrafo. Embora tenha aprendido e gostasse, algumas coisas se repetiam. Carregando equipamentos pesados, tomando choques (isso foi uma novidade), e o camarada do som com sua maletinha… e outra… Nunca ouvi ninguém reclamar com ele que estava demorando, atrasando o set ou qualquer outra queixa do gênero… Como poderia com apenas uma ou duas maletinhas de equipamento?

Em um terceiro momento, pouco antes de ir para a Europa para a minha pós-graduação, ainda trabalhando com no departamento de elétrica, mas já como Gaffer, comecei a engatinhar em alguns trabalhos como fotógrafo. Em um dado momento, estava trocando figurinhas com César Charlone em uma palestra da ABC pouco depois do lançamento de O Banheiro do Papa.

Tive inveja do departamento de som pela terceira vez… Conversando sobre as possibilidades de manipulação para imagens em movimento, película x digital, aquelas discussões que ainda hoje ocorrem, mas com opiniões diferentes em função dos tempos. Ele disse que quando começou a trabalhar com cinema, em fotografia, invejava o som por conta da forma como podiam trabalhar o material em pós, já naquela época, e mesmo nos dias de hoje (à época da tal palestra) a imagem em movimento não tinha as mesmas possibilidades, embora as coisas estivessem melhorando. Foi fatídico!!

Em Madrid conheci um professor que dava aulas em um mestrado de pós-produção digital. Recostados ao balcão de um bar, conversamos sobre as possibilidades existentes e técnicas que estavam sendo desenvolvidas para essa manipulação citada no parágrafo anterior. Na maioria das vezes eu filmava com a Arri SR3 em super 16mm, e esse conhecido me levou para uma semana de testes da D21. A câmera em si nunca chegou a ser uma experiência bem sucedida como se imagina, tinha vários defeitos especiais, como o obturado físico de 180 graus que frequentemente tinha problemas; Contudo, ali comecei a perceber na prática essas mudanças e as possibilidades de trabalho em pós produção começavam a caminhar na direção do que o som já fazia a mais de 20 anos. As brigas que os fotógrafos tiveram com produtores e diretores sobre filmar em 35 ou digital aconteceram no final da década de 70 e inicio dos anos 80. As gravadoras na época não queriam mais gravar um disco em analógico usando mesas NEVE e sim computadores com pró tools ou algo similar.

Ao voltar da Europa, comecei a trabalhar em um documentário. Foi quando conheci Marcio Padilha. Em função do background que tenho em economia (faculdade IBMEC) comecei a me aventurar pela produção executiva, e percebi que o audiovisual é proprietário de um algoritmo próprio que de lógica nada tem. A começar pelo roteiro. Não se faz um filme bom de um roteiro ruim, mas é possível fazer um filme ruim de um roteiro bom. Isso parece óbvio, mas agora entra o lance da lógica. Constatei que 50% para o fracasso ou sucesso de um filme é diretamente ligado a cada um dos departamentos envolvidos. Não temos somente dois em uma produção, daí a lógica inexistente. Se todos trabalharem perfeitamente, chegamos ao resultado desejado e temos um filme bom, mas um desses departamentos pisa na bola… Já era!! E aí não ha pós produção que de jeito.

Isso requer a compreensão de cada elemento que construirá a sua narrativa. O Áudio é um dos mais cruciais. Levando em consideração que o Cinema é um sequestro voluntário (o indivíduo paga para ficar 2 horas a mercê do filme), isso só funcionará com departamentos que tenham passado por um processo significativo de analise e desenvolvimento. A meu ver lente da câmera conecta o espectador ao que se passa na tela. Através dela, começa o recorte do que será contado, já iluminação gera a atmosfera, o clima da obra. Varia de acordo com o que a história (roteiro) pede. O catalisador para a imersão é definitivamente, em minha modesta opinião, o áudio. No âmbito do sensorial, o audio tem um papel importantíssimo. O filme Mestre dos Mares é um exemplo disso. Quando assisti o filme no cinema, voltei a um veleiro de oceano no qual era proeiro. Me senti em um velejo intenso de vento sudoeste de pelo menos 35 Knots.

Se você quer alguém que saiba tanto fazer uma coisa bacana e moderna, como perca tempo desenvolvendo um conceito que influencie diretamente na relação de imersão do espectador com a obra que pretendes criar, entre em contato com pessoas capazes, que tenham sua confiança, e que queiram ser parceiros na criação do seu projeto, e não somente seus empregados. Fica a dica…

Ricardo Macedo
Produtor Executivo e Cinematografo da CPP Filmes

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