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As batidas do coração

Àquela altura do campeonato, já não dava pra separar as batidas do bumbo das do coração.

Intervalo de jogo. Eu voltava a campo com a 7 do Vasco e um time de talentos promissores ao meu lado.

Era uma partida de juniôres, preliminar de semifinal dos profissionais, no tempo em que Vasco X Flamengo “era um campeonato à parte”.

O jogo estava empatado em um a um quando descemos para o vestiário.

Na saída do campo, cabisbaixo pelo cansaço, arrisquei uma espiada pra cima. Pequenos aglomerados de gente começavam a formar manchas alvinegras e rubronegras nas arquibancadas.

Dali, não era possível ouvir mais que um zumbido indefinido, além de gritos e assobios isolados.

Numa fração de segundos, fui transportado para a infância. Meu primeiro clássico. E logo o Clássico dos Milhões.

Uniformizado da cabeça aos pés, andando em êxtase ao lado do meu pai pela rampa de acesso ao Maracanã, tudo que eu ouvia era uma confusão de sons: gritos de torcida, provocações entre adversários, ambulantes, um buzinaço estridente. Tudo misturado, compondo uma sinfonia bizarra, que soava como música para meus ouvidos virgens de estádios.

Mas o melhor ainda estava por vir.

Cumprindo todo o ritual do torcedor (do velho Maraca), mijamos no corredor, compramos um Genial e entramos num túnel escuro com uma luz irresistivelmente brilhante no final. Ao cruzar este túnel, senti algo que eu nunca havia sentido até o momento. Um barulho ensurdecedor de milhares de pessoas cantando ao mesmo tempo. A vibração provocada por aquela gente era contagiante, inexplicável, arrebatadora.

O Maracanã parecia uma grande concha acústica.

Mais de 10 anos depois, voltando do vestiário e do estado de transe em que entrei, o espanto.

O anel estava praticamente fechado. Uma mágica que só precisa de 15 minutos para acontecer.

Fomos os primeiros a voltar pra campo e a Força Jovem, ao nos avistar, entoou o seu grito de guerra (dá época): “Acima de tudo, abaixo de nada. Força Jovem Vasco! Eu sou Vasco da Gama, eu sou…”.

A resposta veio rápido. Dezenas, centenas, milhares de assobios e vaias formavam um coro que faria até Stevie Wonder tapar os ouvidos. “Fiiuuuuuuuuuuuuuuuu…”

Em seguida, o grito de guerra dos anos 90 surgiu como um trovão: “Oh meu Mengão, eu gosto de você…”. Logo, todo o estádio virou o palco de um grande duelo vocal entre as torcidas.

Ainda não inventaram uma definição para aquilo que estávamos sentindo. O ruído grave nos invadia por todos os poros do corpo, regendo a batida do coração e ajudando a bombear o sangue num ritmo frenético.

Um som tão forte que faz correr o mais “chupassangue” dos jogadores. E tão marcante que até hoje ecoa no fundo da minha alma.

O resultado daquele jogo? Fica pra outra história.

Victor Vicente
Sócio e Diretor de Criação da Camisa 10

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