Em breve, outras surpresas da Zuêra. close ×
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Em branco

Careca, barrigudo, judeu, pau cortado, feio, baixinho…

Na boa, eu sofri bullying de Deus. Sério!

Mas o que tem isso a ver com o pedido que o Marcio fez de falar sobre “áudio”?

É que Deus, não contente de me ferrar na parte de “vídeo”, ainda resolveu me espezinhar no áudio.

Além da voz pouco representativa, ainda meteu uma língua presa de dar inveja ao Cazuza.

Deus podia ter me feito feio, mas com aquele baita vozeirão pra contrabalançar.

Tipo os locutores de rádio que quando você conhece pessoalmente ou vê na TV, pensa que estão sendo dublados.

Eu não. Minha voz é a minha cara, saca? Graças a isso nunca pude passar um trote. Bastava falar um “oi” que sabiam que era eu.

Mas Deus foi aperfeiçoando pra chegar nessa imperfeição toda. Deu a mesma voz pro meu irmão mais velho. Aliás, como a gente se divertia com isso. Os mais novos podem não saber, mas antigamente telefone de casa tinha extensão. A gente adorava brincar de cada um falar uma frase e ver que ninguém percebia que tinham dois falando. O escroto do meu irmão marcava cinema com as minhas amigas como se fosse eu. E só me falava em cima da hora. Uma vez revidei acabando o namoro dele, mas pra não dar merda, até porque ele era mais velho e campeão de judô, avisei a moça que era brincadeira.

Acho que vem daí minha adoração por criar spots de humor. Eu e o Marcinho viemos de uma época que ainda se criava spot de rádio.

Pode parecer esquisito para os mais novos, mas antigamente, a gente não mandava o texto pro locutor da rádio gravar do jeito que bem entender. A gente criava. A gente produzia.

E não era essa molezinha de computador. Era fita, editava com tesoura, gilete e durex. O Marcinho era foda nisso. Dava um trabalho FDP, demorava horrores, mas a gente se divertia. Bons tempos aqueles.

A gente era politicamente incorreto pra caralho e não sabia. Se fosse hoje, acho que eu não teria uma peça no portfólio. Tive spot tirado do ar, censurado mesmo, só porque era um viado comprando Chevrolet no Gatão. Era tão escrotinho que levou o Grand Prix do ano. O vendedor perguntava se o viado queria um Diplomata. O viado dizia que não pois achava os diplomatas muito frios. “E quem sabe um Comodoro?”, perguntava com duplo sentido o vendedor. E ia nessa putaria inocente até o final. Uma vez fui apresentar pro cliente um spot que era de um gago comprando carro. O cliente riu pacas e depois recusou dizendo que o irmão dele era ga-ga-ga-go. Como era divertido criar naquela época.
Pensando nesse texto é que comecei a reparar que minha carreira sempre foi muito mais ligada ao áudio que ao vídeo. Ganhei muito prêmio de rádio. Fiz mais de 30 letras de jingle. Daí me empolguei e virei letrista. Pra ninguém saber que as letras eram minhas, espalhei uns 4 pseudônimos por aí. São mais de 20 músicas gravadas e uma até me deu um bom dinheiro. Aliás, essa que fez sucesso, tocava muito, o tempo todo e em tudo que era canto. Uma vez, depois de um prêmio Colunistas lá foi a maior galera alcoolizada pro Barbarella. Bom, é lógico que a porra da música foi tocar logo no puteiro, e como o meu pseudônimo tinha sido descoberto, fui jogado pelos colegas de profissão no palco, onde as moças faziam uma coreografia pra lá de especial. “A letra é dele” gritavam os cornos. Inesquecível! Coisa de Maluco!

Criei também dois programas de rádio, o “Hora do Blush” e o “Homens de Segunda” para a Paradiso FM. Duas experiências bem legais e que deram um puta prazer.

Agora, eu e o Marcinho estamos juntos de novo, fazendo uma coisa no mínimo inusitada para quem conhece nossos antecedentes criminais: as histórias do Reino Encantado de Lé com Cré, para a grife infantil da Madame Lach. Bruxas, reis, princesas, fadas, príncipes… Já gravamos duas aventuras de 10 minutos, que viraram o meu mais novo xodó. A magia do áudio é algo surpreendente.

Tão surpreendente que a minha voz ridícula e minha língua presa medonha dublam agora o Rei Lelé. E o pior: ficou bom.

Silvio Lach
Diretor de criação da Bloco C,
Editor da Revista M…,
Editor do @na_kombi,
tuiteiro de humor e letrista

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