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Entre letras e acordes

Nas festas de família era possível ouvir de tudo um pouco: felizmente e infelizmente.

E vocês já vão entender por que.

Do piano que ficava na sala da casa do meu tio, saía Elton John.

Do violão, meu primo e os amigos se encarregavam de tocar Beatles, Toquinho e Vinicius, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Elis Regina e as canções dos festivais nacionais.

O pai dele mandava muito bem como tenor cantando músicas italianas.

Outro tio era eclético. Bem mais eclético. Ouvia no seu toca discos, o lado A e o lado B (sim, isso existia) de LPs da antiga, desde Orlando Silva até Samba Enredo, Gonzaguinha e Gonzagão, Jorge Ben Jor, Frank Sinatra. Música latina, americana, italiana e brasileira fazendo uma mistureba e tanto.

Do toca fitas da Caravan do meu pai, que é italiano, ecoavam as óperas.

Eu, só um adolescente, ouvia isso tudo.

Mas gostar, eu gostava mesmo era de rock nacional, internacional e progressivo. Yes, Led Zepellin, Barão Vermelho, Cazuza, Legião Urbana, Marillion, U2, Rush, Pink Floyd, Dire Straits e até Heavy Metal.

E com toda essa mistura, lá pelos meus 13 anos, aprendi violão. Daí a formar banda de garagem com a galera da escola e do condomínio foi um passo. Ou um compasso.

A música tem esse poder de fazer amigos, aproximar. Fiquei tão entusiasmado com a ideia que passava tardes com as paletas e a guitarra na mão em vez do lápis e borracha. Lendo as pautas em vez do caderno pautado. É claro que no final eu desafinei, errei o tempo e levei foi uma sonora chamada com a reprovação da 6ª séria.

Aliás, foi no Festival de Bandas do Colégio Bahiense de Jacarepaguá, que me apresentei pela primeira e última vez num palco como músico. Fiquei em 4º lugar.

Tive também a minha fase de jazz nacional, música instrumental, blues, dos shows no parque da Catacumba, na Lagoa e no Fashion Mall. Ali, inclusive, tive o privilégio de assistir ao vivo, a um show maravilhoso da banda Jazz Brasil, com Cyd Alvarez, presidente da NBS, mandando ver no teclado, acompanhado de outras feras! Coincidência que só fui descobrir mais tarde quando trabalhamos juntos.

Quando me converti, em 1992, a música voltou com força, agora no Gospel. No ano seguinte, lembro de tocar violão e cantar para o meu filho, bem perto da barriga da minha esposa. Acho que ele escutou, porque além de excelente baterista desde os 10 anos, toca violão, teclado e o que mais vier. Hoje estuda e trabalha com música. Minha filha, desde pequena, também não podia ouvir uma música na igreja que queria descer do colo, dançar, rodopiar.

Quando decidi fazer publicidade troquei as cifras pelas letrinhas, mas não abandonei a música. Só encontrei uma outra maneira de continuar amigo dela. Criando spots, jingles, sugerindo trilhas para comerciais, usando e abusando de sound design, de ruídos e sonoplastias para dar vida a um roteiro que só existia na minha cabeça e no papel. Sem pretensão, criava algumas letras de jingles para diversos clientes.

Sempre dizia para as produtoras: “é só uma letra-briefing! Pode mudar à vontade! Aliás, é pra mudar, melhorar, fazer com competência.” E não é que algumas vezes eles aproveitavam e eu emplacava letra e melodia quase 100%?

Aproveitei essa mistureba boa e esse baú musical como referência em diversas trilhas para comerciais que fiz ao longo da minha carreira.

Esse foi o lado bom de ter ouvido tanta coisa diferente.

Comigo não teve essa da publicidade ganhar um criativo e a música perder um instrumentista. De certa forma consegui ser com os antigos bolachões. Ter o lado A e o lado B.

Chiquinho Lucchini
Diretor de Criação da Kindle

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