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Luz, câmera e… Peraí, e o som?

Ou Luz, câmera e o som!

No set em que gravávamos o piloto da série a correria era grande.

– Quando tempo pra fazer a luz?

– Meia hora.

– E os atores?

– Já estão maquiando, em vinte minutos tudo pronto…

– O cenário tá ok?

– Direção de arte está fazendo os últimos ajustes…

E eu já pensando no próximo plano, na próxima sequencia, nos diálogos que estriam por vir e a mãozinha cutucava meu ombro.

– Não esqueceu de nada não?

Lá estava ele, técnico de som, gravador atravessado no peito, fone no pescoço, vara boom como se fosse um cajado e aquela um super microfone de sobrenome gringo pendurado no final dela. Olhar impassível. Como Garfield numa segunda –feira.

Pois é, o som.

Teve aquela vez que o operador olhava pra mim, ainda neófito em tocar equipe, e fazia apenas um positivo após cada frase do entrevistado. Na ilha percebemos que não havia nada gravado.

Repito: NADA.

O que fazer? Usar de uma técnica que não se ensina nas faculdades, mas é muito usado no mundo das produtoras: a cara de pau.
Um clipão bem montado, imagens, música pulsante, algumas cenas do entrevistado andando pelo empreendimento e… Um locutor com voz bacana dizendo o mesmo que ele diria. No final, colou.

– Ficou até melhor… Boa idéia de vocês! – Disse o cliente.

Ufa. E hoje é crônica aqui na página.

Numa outra vez gravando o político, simpático na TV, mas como aprendemos no estúdio a dinâmica era outra, o assistente foi lá e fez a pergunta clássica:

– Posso colocar o microfone no senhor.

– Pode, claro… Só não quero que me encoste.

Vimos ali claro que nosso candidato tinha certa ojeriza à pessoas negras. Simples assim. O problema que toda boa parte da equipe, incluindo este que escreve, não nega a raça.

Ele me olhou e olhei de volta no clima de “carrega tua cruz que a minha é de isopor”.

E foi o assistente improvisar um boom com um microfone de lapela. O resultado ficou bom, o politico mandou seu texto bem, vinheta linda e um produto bacana entregue. O melhor inclusive foi saber que ele não foi eleito, não ganhou nem em seu reduto.
Isso foi lindo demais. E espero que no fundo tenha tido alguma coisa a ver com esse dia. Ou vai ver que por ali, em sua área ele já tivesse dado pinta de sua superioridade “ariana”.

Momentos lindos eu tive num estúdio de som. De jingles, spots, locuções… Algumas feitas na emoção e de primeira. Com um singelo comentário no final de um texto que fiz e que Márcio Seixas tornou muito maior e pungente. No final da primeira leitura, todos em silêncio, emocionados e o diretor do estúdio desafia:

– Alguém quer estragar?

Aprendi nos anos de publicidade que através do som você muitas vezes precisa mais da ideía do que da verba.

Um ruído, uma entonação, um clima, preenche a cabeça, os sentidos e leva quem você quiser para onde você quiser levar.

Um texto bem dito, bem entonado, bem falado tem poderes até com as mulheres. (Desculpe, não resisti a piada)

Só quem nunca ouviu um comercial bem feito para rádio de cerveja não sabe que som pode ter sabor. Ou com aquela voz sensual pode aguçar seu olhar… Pesos e medidas que muitas vezes da pra pegar em pensamento.

Voltando ao set o técnico de som ainda me olhava. E começou a se ajeitar.

O diretor de fotografia reclama.

– Ae, esse boom ta em quadro!

– Faz o filme mudo então!

E começam um “bate boca” humorado. Rúidos, risos, piadas que ficavam por ali soltos no ar. Sons bacanas e preciosos que só um
set tem.

Marton Olympio
Diretor e roteirista

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