Em breve, outras surpresas da Zuêra. close ×
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MC MEFISTÓFELES

Ela já tinha parado de dizer que nunca existiu nem jamais existirá homem como ele. Já não passava as noites respirando roupas que ele não mais vestiria. Já não encharcava com lamentos as fotografias das viagens que fizeram a Viena, Paris e Nova Iorque para assistir às estreias das grandes óperas internacionais. Mas ainda passava o dia sem sair de casa, a rádio ligada na estação preferida de ambos, escutando as árias que nunca mais assistiriam juntos.

A que tocava naquele momento era, por sinal, uma das preferidas da ópera que mais gostava. Uma cavatina, na verdade, pequena ária do terceiro ato de Fausto:

Salut ! demeure chaste et pure!
Salut ! demeure chaste et pure,
Où se devine la présence
D’une âme innocente et divine!

Repara, meu amor, ele costumava dizer, É na repetição que vem a surpresa, como a vida: parece que é a mesma coisa sendo dita, mas uma pequena mudança na entonação e pronto: tudo adquire outro significado.

As lágrimas começaram a rolar mais espessas pelo rosto dela, já na expectativa de quando, ao final da repetição deste pequeno trecho, o tenor pressionaria vigorosamente o diafragma alcançando a nota mais alta, aquela que separa protagonistas de coadjuvantes, ao falar da “presença que se adivinha de uma alma inocente e divina”:

Salut ! demeure chaste et pure!
Salut ! demeure chaste et pure!
Ela é uma diva divina!
Ela é gata, é coisa fina!!

O que foi isso que eu ouvi?, ela pensou, Não é possível!

Ela é uma diva divina!
Ela é gata, é coisa fina!!

Ela não acreditava no que estava escutando. Chegou a pensar que algum vizinho de mau gosto tivesse ligado no volume máximo um funk absurdo e grosseiro. Mas não: o som horroroso vinha exatamente da rádio que sintonizava e repetia:

Ela é uma diva divina!
Ela é gata, é coisa fina!!

O locutor interrompeu a música, pediu desculpas aos ouvintes, colocou outra ária, alegou problemas técnicos e disse que, tudo resolvido, tocariam novamente, na íntegra, a ópera de Gounod.

Ela não se conformou. Qualquer ópera poderia ser interrompida, menos aquela. Afinal, Fausto era a preferida dele não só pelas músicas, mas pelo argumento: a busca a qualquer custo pela juventude. Não quero morrer nunca, ele dizia, só assim posso te amar para sempre, minha Marguerite.

Foi até o aparelho de som, encontrou o CD de Fausto, regido por um maestro alemão, e colocou no trecho que não conseguiu escutar por causa do vexame da rádio: primeiro chegaram os violinos, depois apareceu o tenor e finalmente fechou os olhos:

O Nature,
C’est là que tu la fis si belle!
C’est là que cette enfant
a dormi sous ton aile,

Sim, quando estava com ele era exatamente assim que se sentia: uma menina dormindo, de olhos fechados, coberta por asas. Asas dele.

A grandi sous tes yeux.
Là que ton haleine
Gata, nem tenta dormir!
Não vê que eu tô aqui?!

Ela pulou do sofá. Será possível que novamente um funk absurdo estava interrompendo a música? Mas como, se desta vez não escutava uma rádio? Será que entrou algum vírus, no som ou no CD? Não, claro que não, que pensamento idiota.

Sei que tu vai ficar bolada
Mas sou eu nessa parada!

Ela não podia acreditar naquilo que escutava. Era como se aquela voz bizarra de funkeiro estivesse querendo falar algo para ela. Não, que bobagem, imagina, estou ficando maluca. Correu até o banheiro, pegou um calmante, tomou com a água da pia mesmo – dane-se, em Paris é assim – e voltou para sala:

Tu me viu sendo enterrado:
“Ele morreu”, pensou errado!

Não era possível que aquilo fosse imaginação. A voz estava realmente se comunicando com ela. E, poderia jurar, parecia a voz dele. Correu para o computador. Precisava encontrar algum vídeo que mostrasse o rosto daquele cantor, materializar aquela voz. Entrou num site e digitou “Salut! demeure chaste et pure!”, “Faust” e “Acte Troisième”. Clicou num link de um vídeo qualquer e, mal o tenor começou a cantar, uma enorme bunda apareceu na tela:

O que vou ter que dizer
Pra tu me compreender?!

Não havia mais dúvidas: a voz que vinha dali era a dele. Sim, ele estava de volta e tentando se comunicar. De um jeito diferente, claro, mas estava. Perguntou, ansiosa, como se procurasse pela sala um interlocutor: Meu amor, é você?

Claro que sou, qual da viagem?
Acha que tô de sacanagem?!

Desculpe, querido, ela disse. Mas você tem que entender, tudo isso é muito doido. Eu nunca tinha visto ninguém se comunicar por música. Quanto mais você, que nem acreditava nessas coisas. Era ateu. E odiava funk!

Nunca é tarde pra aprender!
Quem diz que não, vai se fuder!

Meu amor, que bom que você voltou. Mesmo que seja assim em forma de…música? Sim, música, não podemos ter preconceitos, você está certo. Sempre esteve. Sempre estará. E quero que você saiba que nunca, jamais, em tempo algum, uma mulher amou tanto um homem. Sou sua eterna Marguerite, meu amor. Te amo. Te amo. Te amo!

Naquela noite, os vizinhos não conseguiram dormir com o funk nas alturas que vinha do apartamento dela. Só não chamaram a polícia porque a pobrezinha, coitada, devia estar sofrendo muito com perda do marido, que Deus o tenha. Talvez ouvir funk fosse uma forma de punição, sabe-se lá. E o que eram aqueles gemidos, meu Deus. Aquilo não era música. Aquela mulher que parecia estar gozando, definitivamente, não podia ser música.

Marcos Bassini é músico, redator da Casa Digital e autor de Senhorita K.

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