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Nós, Os Bastardos Inglórios

Até o inicio do século XX a fotografia não era considerada ainda uma arte. Era algo menor, sem grande importância social.

A fotografia era o ofício dos artesãos, dos retratistas, não dos artistas.

Até o início do século XX também não existia ainda a profissão do dentista. Este é um ofício recente. Quando nossos bisavôs tinham dor de dente o que eles faziam? Iam ao barbeiro. Sério. Era o barbeiro que os livrava da dor, geralmente, extraindo o dente que incomodava. Ninguém havia pensado ainda em tratar o dente, em obturações. Pobres de nós. Um gole de uísque, uma ação violenta, um crack, e pronto: lá vai o dente ruim rolando pelo chão. Maldito ! Talvez daí venha a expressão “eliminar o mal pela raiz”.

A historia da evolução do homem é uma historia longa, contraditória e repleta de aprendizagem. Aprendemos uns com outros, via de regra, já dissera o mestre de David Ogilvy, Claude Hopkins.

Certa vez quando eu trabalhava ainda em propaganda, na Bahia, na Propeg do Rodrigo Sá Meneses, tomei um baita pileque e fui dormir. Acordei com a TV ligada e uma cena linda de se ver: uma moça com seios volumosos, ligeiramente á mostra, em função da camisola branca esvoaçante, segurando um candelabro com velas acesas. Aquilo me acendeu. Tratei de sentar e prestar a atenção na moça. Linda. Mas pra que o candelabro? – eu pensei. Para entender melhor o que se passava, sentei na cama e aumentei o som da TV. Quem mandou fazer isso? Bem feito. Que susto eu tomei! Eu que sou ligeiramente covarde com estas coisas do outro mundo, demorei alguns instantes pra perceber que se tratava de um filme de Drácula e aquela era uma das noivas do vampiro. Meu Deus! Se com a mulher do próximo não se deve mexer, imagina mexer com a mulher do Drácula! Bate na madeira, saravá, mangalô três vezes! Que padim Vinícius me proteja! – eu pensei naquela hora. Com vampiro não se pode dar descuido: trata de cobrir o pescoço e, se tiver uns dentes de alho na cozinha, passa rapidamente no corpo todo pra afugentar o dentuço. Vá de retro, Satanás! Assustado que estava, baixei o som da TV, deixando quase nada de Bg.

E só então pude perceber, naquele instante, a importância da sonoplastia em nossas vidas: sem sons de portas rangendo, sem sons de grunhidos de vampiros ameaçadores, sem trilha de fundo, sem a música que congela nosso sangue de medo, Drácula é pouco mais que algo risível. Sem som, filme de Drácula é como filme de Carlitos, dos Irmãos Marx ou de Woody Allen: algo muito engraçado! É como filme de Carmen Miranda com aquelas bananas todas na cabeça, se requebrando e cantando “mamãe eu quero”: soa muito estranho.

Assistir um filme sem som é como ver Tarantino sem a trilha sonora. Assistir Drácula sem som ao fundo é como ver Cães de Aluguel ou Pulp Fiction sem a música de fundo, sem o som dos tiros ou das sirenes da polícia chegando. É como assistir o Exterminador do Futuro sem ouvir direito a frase “I´ll be back! É como rever Tubarão sem o tum-tum-tum da trilha que John Willians criou e que marcou mais o filme que o próprio Tubarão do Spielberg. Até hoje quando vou á praia, eu juro, tomo banho só de baldinho e molho só as canelas porque tenho medo de ouvir aquele tum-tum-tum ao fundo em Bg.

Somos todos uns Bastardos Inglórios. Uns mais, outros menos. Até uns dez anos atrás eu era mais bastardo e não sabia ainda a importância que as trilhas, o som têm em nossas vidas. Morria já sim de inveja dos meus amigos dubladores – como o Márcio Seixas com aquele vozeirão de Batman- e dos compositores que pareciam levar a vida na flauta e mexem com o nosso inconsciente coletivo (quem de nós nunca sonhou em ter a voz do Clint Eastwood ou compor uma música como o tempo Não Pára, do Arnaldo Brandão com o Cazuza?), mas não tinha ainda a noção exata de como o som é importante em nossas vidas.

Bendito filme de Drácula que me despertou pra realidade.

É como disse Lévi-Strauss: o conhecimento nunca foi contínuo. Ele nunca chegou ao mesmo tempo para todos os povos e para todas as sociedades. Uns demoram mais que outros para compreender a importância de alguma coisa.

Mas, mais dia, menos dia, todos nós acabamos percebendo, descobrindo a importância que coisas simples, como por exemplo, o som tem em nossas vidas. Som é tudo na vida. Plim- plim!

João Renha
Professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio.

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1 Comentários

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  • Rafael Laet on

    Super Apoio. A Trilha sonora sempre esteve junto ao nosso entretenimento. Mesmo antes dos belos tempos do cinema, já nos teatros de Shakespeare Cerrotes eram batidos para se fazerem tempestades e musica era tocada ao fundo de cada apresentação teatral na Velha Inglaterra! Fico feliz em saber que o Oscar desse ano homenageou a trilha sonora em suas mais diferentes magnitudes. Viva Drácula! O cinema! E sua completude!


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