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O áudio na minha vida

“O creme dental colgate, criador dos mais belos sorrisos, e palmolive, o embelezador da cútis aveludada como pétalas de rosa apresentam “. Este era o “reclame“ narrado pela locutora Lúcia Helena que antecedia a novela das oito, transmitida pela Rádio Nacional. “A cidade se diverte/ vamos todos gargalhar/ faz de conta que a tristeza/ foi morar noutro lugar/ A cidade se diverte/quá quá quá quá/ faz de conta que a tristeza/ foi morar noutro lugar“. Esta era a vinheta do programa A cidade se diverte, humorístico escrito por Chico Anísio ou Haroldo Barbosa e “levado ao ar“ pela Rádio Mayrink Veiga.

Essas duas emissoras estiveram presentes nos capítulos iniciais da minha vida até onde a minha memória consegue alcançar. As ondas sonoras da Rádio Nacional se irradiavam por todo o país, com uma grade eclética de novelas, programas infantis e educativos, como o Se já existisse o telefone (acho que o nome era esse) que tratava de acontecimentos históricos que teriam outros rumos se já existisse o telefone por ocasião de tais eventos, jornalismo, onde se destacava O seu repórter Esso, programas de auditório (comandados por César de Alencar e Paulo Gracindo, entre outros), humorísticos (como o Balança mas não cai), musicais etc. Já a Rádio Mayrink Veiga se notabilizava pelos seu impagáveis programas humorísticos.

Nasci em Belém do Pará, e passei por Macapá e pelo Guaporé, o atual Estado de Rondônia, antes de desembarcar no Rio de Janeiro e ir morar no bairro Riachuelo.

Lembro, como borrões de lembrança, da irradiação do pênalti batido por Pinheiro no jogo contra a Hungria, time do Puskas, na Copa de 54. Lembro, com mais nitidez, de alguém gritando, depois de ouvir no rádio, que o tenente Bandeira tinha sido condenado. Conhecia o nome dos jogadores de todos os times do Rio de cor, principalmente os do Vasco, campeão em 1956 e 1958, ano em que me mudei para a Rua Gonzaga Bastos, em Vila Izabel, onde meu pai comprara um Bar-restaurante. Nesse Bar, ouvi as transmissões da Copa de 58 e Brizola, no Rio Grande do Sul, convocando voluntários para integrarem a Frente da Legalidade, que exigia o direito de Jango Goulart assumir a presidência do Brasil, vaga pela renúncia de Jânio Quadros. Enquanto isso, Carlos Gonzaga, Sérgio Murilo, Sônia Delfino, Elvis Presley e The Platters dominavam as paradas de sucesso, e a Bossa Nova começava a mostrar suas harmonias dissonantes.

Ao áudio, então, é agregada a imagem. A Era de Ouro do Rádio esmaecia e a Televisão entra em cena, impondo uma convivência alternativa de preferências midiáticas. Os ventos da adolescência passam a soprar em meus olhos e em meus ouvidos. Torno-me ouvinte da Rádio Tamoio e Rádio Jornal do Brasil, e espectador da TV Rio e TV Record, o canal dos Festivais e do programa Esta noite se improvisa.

Tive uma infância feliz, jogando bola nos terrenos baldios, sob um céu coalhado de pipas de todas as cores, e uma adolescência mágica, vivendo as primeiras paixões na Rua Senador Soares, perto da antiga Fábrica de tecidos Confiança. Nesse recanto encantado, enquanto a maioria da garotada ia para a Barra assistir às corridas de carro, cujo grande nome era o Bird Clemente, eu preferia ouvir as músicas de Edu lobo, Baden Powell, Carlos Lyra, Chico Buarque, Tom Jobim, Milton Nascimento, Pixinguinha… E os versos de Vinicius de Morais, Capinam, Gianfrancesco Guarnieri, Chico Buarque, Ronaldo Bôscoli, e, no espaço dedicado aos anunciantes, cantarolar os jingles, extremamente criativos, que levavam a assinatura de muita gente boa, dentre elas, a do genial Miguel Gustavo. Por essa época, Nara Leão resgata o samba das escolas ao incluir músicas de Zé Keti, compositor criado na Portela, no antológico show Opinião. A partir daí, a classe-média descobre os ensaios das escolas, e os sambas próprios dessas agremiações ganham notoriedade e são executados em todas as emissoras. Surgem Martinho da Vila e Paulinho da Viola.

Entrei na Faculdade de Filosofia por acaso, abandonei-a, retornei e me formei para eu mesmo me responder, já que nenhum professor me respondia, o que é, e para que serve Filosofia, mas nunca lecionei, pois não tenho vocação para o magistério, minha praia é a música. Assim, no início dos anos 70, debuto como compositor reconhecido quando Clara Nunes grava o samba-ciranda Conto de areia, de minha autoria em parceria com Romildo S. Bastos… e abrem-se as portas. Tive várias de minhas composições, com diferentes parceiros, gravadas pela já citada Clara Nunes, Elza Soares, Elizete Cardoso, Roberto Ribeiro, Beth Carvalho, Alcione, Agepê, Fundo de Quintal, Jair Rodrigues, Bethânia, Paulinho da Viola etc. No final dos anos 70, fui trabalhar como jinglista na Tape-spot, produtora de Jorginho Abicalil, discípulo de Miguel Gustavo. Nos anos 90, abandonei a publicidade e dei um tempo na minha produção musical. Comprei uma loja de sucos… faliu. Não tenho vocação para o comércio, minha praia é a música. Em 2006, reintegro-me à Ala de compositores da Portela e volto a compor. Torno-me tricampeão de samba-enredo pela Portela (anos de 2012, 2013 e 2014) e tenho várias de minhas composições gravadas por intérpretes da nova geração. Em 2012, volto, pela primeira vez, à minha terra natal, Belém, e participo do projeto Terruá Pará, só de artistas paraenses.

Somos a soma de muitas pessoas numa só. Do mesmo modo, podemos nos definir de diversas maneiras, e, das minhas várias definições, eu posso dizer que sou um ser do som. Um ser dos sons naturais. Som das cachoeiras, dos rios, dos igarapés, do roçar do vento nas folhagens, dos miados, dos silvos, dos grunhidos, dos risos e dos prantos. Um ser dos sons metropolitanos. Som dos trens chacoalhando nas linhas. Som dos sinos paroquiais. Som dos carrilhões. Som das cordas e dos couros. Som das palavras ditas e cantadas. Som das notas musicais. Som do som.

PEREGRINO (Paulinho da viola)
Autores: Toninho Nascimento e Noca da Portela

VIRÁ NUM RISO DE CRIANÇA
OU NUMA LÁGRIMA DE DOR
VIRÁ, TALVEZ, NUMA ESPERANÇA
OU NUM SONHO QUE PASSOU
INESPERADO PEREGRINO
SAGRADA É A SUA MISSÃO
DE ABENÇOAR A NOSSA VOZ
ILUMINAR NOSSO DESTINO
COM A CHAMA DA INSPIRAÇÃO
ELE VIRÁ
QUEM NASCEU PARA SEMPRE
PRA SEMPRE VIRÁ
É UMA ETERNA SEMENTE
SOLTA PELO AR
FECUNDANDO DE FELICIDADE
POR ONDE FOR
E ASSIM SERÁ
NINGUÉM VIVE FELIZ SE NÃO PUDER FALAR
E A PALAVRA MAIS LINDA É A QUE FAZ CANTAR
TODO SAMBA, NO FUNDO, É UM CANTO DE AMOR

Toninho Nascimento
Compositor e professor de Filosofia

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