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O Processo

leo_saramago

Onze horas da manhã, o telefone fixo toca. Celulares pertencem ao futuro. Minha intuição sabe quem está ligando e por quê. Vou ter que ir ao estúdio e, provavelmente, o dia será uma correria.

Atendo. A secretária, a Carla, confirma minhas suspeitas. Tomo um banho, almoço, pego o meu teclado e entro num táxi. Trajeto de quinze minutos. Sou recebido pelos autores do jingle: um letrista e uma compositora, pratas da casa. A ideia já está organizada e cronometrada para caber em exatos 30 segundos: só precisam que eu faça o arranjo.

As duas salas de gravação estão ocupadas com a finalização de outros jobs. Cantores, músicos, locutores, engenheiros de áudio, produtores, maestros e clientes se revezam na área do cafezinho. Sempre tem alguém rindo de alguma besteira. A casa está cheia como de costume.

Um rápido “boa tarde” a todos, de passagem mesmo. Monto o meu equipamento em uma sala improvisada, enquanto a composição, violão e voz, é aprovada por telefone. O cliente pede algumas alterações na letra, o letrista resolve na hora e ganhamos sinal verde.

Finalmente, recebo um briefing. O prazo é para ontem, claro, mas a pressão não me incomoda. Eu nunca tive problemas para criar música, nunca hesitei. No caso, a composição já está pronta, no tom certo e muito bem amarrada. Faço o máximo de programação possível em um sequencer, um hardwareexterno, e armazeno os dados MIDI em um disquete de 3 polegadas e meia. Ainda terei que desligar tudo, desmontar e montar de novo na sala de gravação do estúdio mais tarde.

Estúdio de gravação disponível, lá vou eu. Transferimos o arranjo parcial que criei para as grandes fitas nas enormes máquinas de rolo. Essas máquinas precisam de manutenção e limpeza constantes. A degradação do som está sempre à espreita, os níveis de ruído absolutamente audíveis. Um saco! Papo de engenheiro mesmo.

Agora é a vez da banda entrar em ação. Primeiro, bateria e contrabaixo. A bateria já está pronta e microfonada graças ao job anterior. Ouvindo o metrônomo, que também foi transferido para um canal isolado na fita, os caras mandam ver. Normalmente, sou obrigado a tocar a parte do piano de novo, junto com eles, porque o groovese encaixa melhor assim. Dependendo do gênero musical, o piano chega a ser substituído por uma guitarra ou violão posteriormente. Às vezes, tenho que refazer alguns dos outros instrumentos também. É tudo muito rápido, de uma a quatro passadas do jingle. Chato é esperar a fita rebobinar.

Em seguida, camadas e mais camadas de instrumentos e vocais são gravadas. Há uma limitação no número de pistas que podem ser usadas simultaneamente,16 ao todo. Quando percebemos que o arranjo completo não vai caber, lá pela pista 12 ou 13, somamos parte do que já está gravado e jogamos nas pistas 14 e 15 em estéreo, técnica conhecida como redução, que vem lá dos primórdios dos The Beatles com suas pequenas máquinas de 4 pistas. Assim, é possível sobrescrever o conteúdo das primeiras pistas, acrescentando mais elementos. O lado ruim é que perdemos a capacidade de fazer quaisquer edições individuais. Não, pera aê, esse é o lado bom. Somos obrigados a tomar as decisões certas, fazer os equilíbrios rapidamente e seguir adiante. A locução vem por último. Cronômetro na mão: 30 segundos, confere. O engenheiro de áudio faz a mixagem. Quando o cliente não pode comparecer, todos aguardam a aprovação por telefone. Dificilmente teremos alguma mudança no aspecto musical desse ponto em diante. Se tivermos, vai doer no bolso do cliente.

O processo é caro em 1995.

Salto para 2013.

Não há dúvidas de que a Revolução Tecnológica dos últimos vinte anos trouxe benefícios ao mundo do áudio. A gente não se dá conta porque vai incorporando cada novidade à rotina aos pouquinhos, simplificando tarefas que exigiam um esforço grande e custavam muito tempo.

Olho para o quanto minha vida mudou e até me assusto. Nem preciso sair de casa para criar um arranjo de altíssimo nível e aprovar tudo por e-mail em poucas horas. O som dos instrumentos virtuais é de um realismo absurdo. Meu computador de trabalho com 64GB de memória RAM e drives SSD, o top do top do top hoje(obsoleto daqui a três anos), só precisa de 20 segundos para completar o boot. O número de pistas simultâneas é ilimitado. Não há perda de qualidade ou desgaste de cabeçotes. Não é preciso ficar alinhando máquinas. Não há fitas, nem ruído. Só vou ao estúdio quando é necessário fazer alguma captação com os microfones ou finalizar os trabalhos, pois aí entra a importância da acústica de uma sala de áudio profissional. Sim, o grande diferencial é a sala hoje em dia, além do material humano(óbvio). Qualquer maquinazinha com uma interface de áudio USB 2.0 razoável tem poder de fogo.

Em 1998, já estávamos gravando direto em ProTools. O processo passou a ser extremamente ágil. Foi o ano em que o mp3 apareceu por aqui também. O cliente pode receber uma representação muito melhor da peça publicitária por e-mail, sem ter que sair da agência. Claro, o mp3 tem uma qualidade muito inferior a do áudio digital sem compressão de dados, que é como tudo é gravado e mixado, mas chega a ser covardia comparar com uma avaliação feita por telefone.

Aproveito para esclarecer que, apesar das reclamações dos audiófilos fanáticos por equipamento analógico, aqueles de carteirinha e tudo – mistura insípida de ignorância, teimosia e saudosismo, os samplers dominaram o mercado e evoluíram, transformando-se nas ferramentas fundamentais de todas as etapas do processo de criação de conteúdo de áudio. São o que hoje chamamos de DAW – Digital Audio Workstation(ProTools, Nuendo, Logic Audio etc.) Veja bem, uma coisa é escolher um equipamento analógico por suas características sônicas, outra coisa é dizer que Analógico representa o áudio com mais qualidade e fidelidade do que o Digital. Não vou entrar em detalhes matemáticos, mas afirmo que é uma grande mentira. Não se deixe enganar pelo blá-blá-blá dos adeptos/seguidores do vinil e máquinas de fita. É caô.

Mas não digo que tudo são flores na Revolução. Coisas importantes se perderam no caminho. O ser humano subverte o uso das ferramentas que ele mesmo cria, tanto para o bem quanto para o mal.

A primeira perda que me vem à mente é o abuso da flexibilidade das DAW’s. No fim das contas, ter opções demais é ruim, principalmente quando o assunto envolve música. Existe um raciocínio, uma lógica por trás das decisões de um compositor e de um arranjador. São coisas muito específicas, ligadas ao talento, fora do escopo da publicidade, e que nem sempre podem ser alteradas sem que haja um desgaste do valor “artístico” da produção, aliás, quase nunca podem. É por isso que as demos são tão importantes para quem cria. Elas são uma estrutura que não exige a preocupação de um produto final. Para finalizar com qualidade, é preciso ter convicção e tempo hábil.

Por derivação, também estou dizendo que havia menos “picaretas” no mundo do áudio. Antigamente, quem não sabia fazer não tinha como fazer porque o processo não permitia.

Outra coisa, as questões políticas, a ambição e a insegurança dentro do mercado publicitário não interferiam tão diretamente no processo criativo das produtoras como interferem hoje em dia, simplesmente porque produzir significava a mobilização de um número muito grande de pessoas: tudo era muito caro e lento. Isso obrigava todos na “linha de montagem” a manter o foco e assumir um compromisso com as decisões tomadas. Saber delegar era imprescindível. Nada era adiado.

As funções eram mais específicas também. Hoje em dia, é comum que o letrista, o compositor, o arranjador, o maestro, o produtor, o músico, o cantor e o engenheiro de áudio sejam a mesma pessoa. Acontece que obter experiência em todas essas áreas demanda muito tempo, ainda mais sem aquele intercâmbio tão natural e inevitável de antigamente, sem aquela convivência.

O isolamento reduz os custos de produção, é verdade, mas até que ponto isso é bom? Não sei dizer. Sei que acumular funções não é só uma questão de ter o dom. Quando comecei, eu era arranjador e olhe lá. Tive a oportunidade de aprender com os melhores dentre os melhores em um mercado extremamente competitivo e exigente. Hoje, tenho até mesmo créditos de mixagens em DVD’s de vários artistas renomados – depois de quase vinte anos de carreira.

Já falei muito. Tenho um arranjo pra fazer agora.

A gente se lê por aqui,

Léo Saramago

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1 Comentários

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  • Marcio Padilha on

    Vivi boa parte dessa história, muitas lembranças legais.


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