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O som ao redor

O subúrbio sempre foi som. Alguém gritava da janela chamando o menino pra sair da rua e vir almoçar. Começava com “João, olha o almoço!” E como ele não vinha, virava: “João Augusto! Vem agora!”.

Eu mesmo provoquei alguns sons heróicos, gritando na rua, o gol suado, ralado e doído no asfalto. A “matraca”, um instrumento mais parecido com uma ratoeira, era sacudido pelo vendedor de pirulito e biscoito, batendo metal contra madeira. Competia diretamente com o megafone do Guaraná Convenção, uma tubaína vendida de porta em porta. Delivery antes da invenção do delivery.

Os sons do subúrbio sempre foram únicos. Sou um cara das Penhas. O apito ao meio-dia do Curtume Carioca dizia que era hora de ir para a escola, com chuva ou sol. E quando fazia sol, era o de meio-dia, pra rachar o coco. Mesmo sendo “das Penhas”, ia aos bailes de soul no clube do Bonsucesso, aos de disco em Ramos, quando não fazia o próprio som – fiz parte de uma equipe de som, nada a ver com banda – onde a pick-up, a fita cassete e um Akai 4000 DS (que está lá em casa), balançavam a turma com paredões de caixas pretas, nas quadras ou salões dos clubes.

Fui pra longe desse subúrbio antes das linhas com cores. Claro que hoje, novos sons surgiram depois do túnel. Não falo apenas dos novos sons musicais – onde o soul ainda faz dançar o Viaduto de Madureira, em contraste com o funk, que não é propriedade de nenhum território.

Mas, o som ao redor que fez a minha memória da infância e adolescência no subúrbio, tinha nome e sobrenome: era o som do meu amigo Roberto Carlos.

Bicho, o cara tinha época certa para aparecer: fim de ano. Predominava um dezembro inteiro e mais um tanto de janeiro sem perder a majestade. Só abria espaço para os Sambas-Enredo das Escolas de Samba, mas nada comparável à marca de 1 milhão de discos vendidos do Rei. E eu sabia que, pelo menos, um LP desse 1 milhão (vinil é bacana de dizer, mas pra gente era disco ou LP), tinha ido parar na casa da vizinha.

E todo dia vinha o Roberto, com hora pra começar e sem hora pra acabar. Ainda mais se a vitrola fosse tecnologicamente avançada: ao deslizar da última faixa do lado A ou B para o centro do fim, o braço se erguia e voltava ao início. Por cima do muro, sabia-se que ele estava ali, vivendo aquele momento lindo.

Sim, meu amigo de fé, meu irmão camarada, você estava ali e eu também, vivendo juntos aquele momento. E uma, duas, três, quantas vezes o braço incansável fosse e voltasse. Era assim o som que anunciava que o Natal no subúrbio estava começando: chegava alguém em frente ao portão com o cachorro latindo (sorrindo, só os mais treinados), LP debaixo do braço e lá íamos nós, ouvir Roberto, acompanhado aos berros pelo feliz dono daquele cobiçado disco. Nenhum muro era capaz de conter tal dueto.

Vantagem tinha: você não precisava adquirir o LP para ouvir o lançamento mais esperado do ano ( de todo ano) e aprender as músicas do Rei. E quando você notava, já estava lá, cantarolando e acompanhando os sucessos (música do Roberto já nascia sucesso), formando um coro sem rostos de casa em casa.

Corta. Muitos anos depois, sentado em um bar, tomando um chopp e um destilado, do lado de cá do túnel que está cada vez mais pra zona e menos pra sul, o som ao redor também chega sem autorização. Vem na forma da “baratona”, uma cerimônia contemporânea que consegue reunir a falta de gosto com a falta de senso. E você, sem poder pedir ao DJ que diminua (ou desligue) o som distorcido que sai do triciclo que vai de bar em bar, acaba festejando despedidas de solteiro ( ou “eira”), aniversários, a viagem de intercâmbio de alguém pra Nova Zelândia (“vamos sentir tantas saudades”) e tudo mais que se pague para comemorar com a “baratona”. Isso porque alguém achou que é bacana dividir sua euforia com desconhecidos como eu ou você. É bem verdade que não havendo os “eufóricos”, não existiria a “baratona”.

Vale ressaltar que esse alegre propagador de som (mas não necessariamente de música), poderia estar roubando, poderia estar matando, mas resolveu fazer as duas coisas com a hora de lazer dos outros. Um pouco mais de gosto e menos de volume já seria um alento. Mas não. Enquanto isso, olhando fixamente para os copos, – o destilado e o fermentado,- aguardando uma simbiose entre os dois, provocada pela vibração no ar, penso se eu era mais paciente na época que o Roberto cantava lá em casa, mesmo sem aparecer na minha vitrola. Mas uma coisa é certa: se alguém disser que a “baratona” é uma manifestação cultural, prefiro a ignorância.

E que tudo mais vá pro inferno!

Marcos Apóstolo
Diretor de Criação da Agência Binder

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