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Os Efeitos Sonoros da Minha Trilha

Eu era bem garoto. Uns nove ou dez anos e, na zona norte do Rio de Janeiro, na Praça Saens Peña, no bairro da Tijuca…

Não lembro mais o mês nem o dia, seria inaugurado o Cine Rio, estreando um filme chamado Help! E com uns certos caras chamados Beatles.

Mas, para carimbar esta figurinha no álbum, a garotada invadiu, quebrou as vitrines, teve gente cortada, machucada, veio a polícia, o Corpo de Bombeiros e a sessão foi suspensa.

Fui ver o Help! cerca de um mês depois, não lembro mais onde e nem preciso lembrar, né?

Meu pai, Roberto Vasconcellos, era o Presidente do Grajaú Tênis Clube e, talvez, o fato de eu ter visto o filme quarenta e sete vezes tenha influenciado profundamente a minha relação passional e definitiva com o som.

A bem da verdade, foi ali, indiretamente, que aprendi que, na vida, a gente só deve mesmo ter e manter relações que sejam realmente verdadeiras. Seja com a música, com o som, com o trabalho, com a família e com as pessoas em geral.

No entanto, por outro lado, preciso ser justo e acho que vale à pena ressaltar que desde os meus seis ou sete anos já ia, com a minha Avó Esmeralda, pelo menos uma vez por mês, ao Largo da Carioca, no centro da Cidade – a bordo de uma ‘lotação’, que tinha escrito na bandeira “Praça Paris – Grajaú” – para eu ver as capas, ouvir as músicas e comprar os meus primeiros discos.

Assim, comecei no garimpo. Em lojas de departamento, como a Mesbla, Cássio Muniz, Lojas Pallermo, Tonelux ou numa outra, específica, que não lembro o nome, mas que pode ter se chamado “Copa Discos”, “O Rei do Disco” ou Império… sei lá.

O fato é que meus primeiros vinis – escolhidos e comprados por mim – foram: o célebre compacto da capa do “salto”, lançado pela Odeon, selo amarelo, tendo de um lado “I Want to Hold Your Hand” e no outro, o Lado B, “She Loves You”, ou vice-versa, como provaram as paradas de sucesso.

Além dele, o LP do Trini Lopez “Live At The P.J.’s”, “Meus 18 Anos”, da Fantástica Rita Pavone e, provavelmente, “5 Na Bossa” – um pau de sebo de bossas e sambas-canção – ou “Ben É Samba Bom”, com Jorge Ben. Faz tempo isso.

Mas, voltando ao motivo de eu ter sido convidado para dar este depoimento, com certeza os Beatles e o “Help!” me deram uma ajuda danada. Nem tanto pelo disco em si ou pelo filme, mas pelo fato do quebra-quebra, que só aumentou o desejo de vê-los e ouvi-los, na tela.

Internet? O que é isso?

A partir daí, passei a prestar mais atenção na programação social do Clube, onde o Sexteto Pigalle, os conjuntos de Ed Maciel, Ed Lincoln, Stevie Bernard, D’Angelo e de tantos outros grandes maestros e músicos, davam as cartas, conduzindo, com elegância, mas de forma careta, bailes de quatro, cinco horas de duração.

Eu sempre fui um pivete bacana. Que não importunava os mais velhos, que não forçava barra pra entrar nos time-contra e, até por isso era bem-chegado. Fã da Jovem Guarda, dos Beatles, Kinks, Dave Clark Five, Young Rascals e Who, pra citar os do início, comecei a me interessar, também, por dar palpites na programação social.

Primeiro, sugerindo um outro tipo de baile, que já rolava na zona sul, com The Bubbles, The Crows, Divers, Analfabitles, Pop’s, Fevers, Incríveis e tantos outros. Isso evoluiu e eu conheci os empresários dos grandes artistas (Luis Andrade, Ari Osman, Sanches, Oswaldão) e levamos ao Grajaú, ninguém menos do que “Os Mutantes”, “Som Imaginário”, “Equipe Mercado”, Simonal, Juca Chaves e até “The Foundations”. E depois, descobrindo e usando um espaço vazio, não aproveitado, na sede velha do Clube. Foi ali que, com uma enorme ajuda da minha mãe – que foi comigo a um monte de ferros-velhos, pra eu comprar paralamas, portas, traseiras, para-choques, faróis e até capôs de carros batidos – nasceu a ideia de fazer uma boate temática: a Boite Oficina.

Levamos tudo para o tal espaço, onde cabiam umas 200 pessoas, e ao lado de um grande amigo, Helcio Rodrigues (Jacaré, até hoje amigo particular e de Facebook), juntos, demos início à primeira boate de clube social, na zona norte, a competir com as domingueiras do Caiçaras, Clube Naval, Sírio e Libanês, Orfeão Portugal e alguns outros.

Em pouco mais de 6 meses, eu tinha um comprado milhares de compactos, LPs e mais um “Candango”, jipe da Vemag e uma moto Norton, preta, de 500cc. O problema é que eu só tinha 14 anos. Quando meu pai descobriu, me deu 24 horas pra vender os dois, ou ele acabava com a Boite.

A gente enchia ampolas com tinta acrylex, jogava nas paredes, elas quebravam e deixavam impressos, sob luz negra, o surrealismo de Hendrix, misturado aos solos alucinados de Dali. Usava, também, um Sonolux, da Josias Estúdio, Um Rolo Akai M-10, duas Pick Ups Garrard, um mix de fabricação própria, dois ‘woofers’ Thundersound, da Gianini, um monte de Polivox SC12-E. E som na casca.

Em uma das noites mais lotadas – a gente vendia uns 2000 igressos por domingo e a galera se espalhava pelo clube todo -, porque lá dentro, no ambiente, eram 200, 250 pessoas, no máximo, que se revezavam, de 9 horas da noite até 1 hora da manhã.

E foi numa domingueira dessas, que vi chegarem três caras diferentes dos habituais: um, que eu sabia que jogava futebol de salão pelo clube e, aliás, jogava muito bem. Negão, magrinho, cabelos encaracolados, fala nervosa e barba bem desenhada; um outro, calmo e tranquilo feito água de poço, com uma camisa estampadíssima, talvez importada da Ilha da Fantasia, uma calça jeans bem surrada, uma bolsa de couro à tira-colo, Tênis All-Star vermelho e até uma certa semelhança física comigo, só que um pouco mais alto.

Fechando o trio, um cara totalmente diferente, de cabelos curtos, calças de Tergal, camisa de abotoar e um jeito bem sociável. Os três se dirigiram ao meu pai e se apresentaram: Pessegueiro do Amaral, Big Boy e Ademir Lemos.

Eles tinham ido lá para oferecer o “Baile da Pesada”, que eu conhecera, um pouco antes, no Canecão. Meu pai não deu muita atenção. Mas eu dei. Interrompi o papo e disse que não tinha como não trazer o “Baile” pro Clube.

A partir daquele dia, comprovando o sucesso dos caras, meu pai me colocou como o cara que, praticamente, fazia toda a programação ligada aos jovens. Eu fiz grandes amigos ali. E tive um professor único, incomparável. Big Boy.

Sergio Vasconcellos 2

Newton Duarte, o lendário DJ, me deu a maior prova de reciprocidade desta amizade, quando me enviou, pelo Correio, de Londres, um dos acetatos do álbum “Abbey Road”, que ele arranjou, não me perguntem como. Claro que recebi. E claro que entreguei a ele. Já o Ademir, era da casa. E o Pessegueiro, que viria a se tornar seu cunhado, foi o empresário que armou o esquema todo, desde o Canecão, baseado na ideia do Ademir.

Aí, ficou fácil demais: os caras passaram a vir promover o “Baile da Pesada”, na Boite Oficina e foi lá, na improvisada ‘Oficina’, que ele levou, carinhosamente, e lançou, em primeira mão no Brasil, um monte de singles, que iam de “Down The Road”, com o até hoje desconhecido Les Variation a “Sugar Sugar”, com The Archies.

Foi dali, em todos os sentidos, que peguei o que sei sobre rock, blues, soul, folk, jazz, funky, impiedância, cancelamento de fase, overload, bass reflex e otras cositas mas. Eu, com certeza, não saberia o que fazer em muitas situações, quando se faz a coisa ao vivo, sem borracha e sem mentiras, não fosse o “Baile da Pesada”. Pude aplicar boa parte disso na Fluminense, na produção dos tapes que rolaram no Rock In Rio I, na Rádio Panorama e até, ocasionalmente, na própria Rádio Cidade. Sem contar que, décadas depois, na www.radiovitrola.net, apresentei, durante três anos o programa “Radionor Tum Tum Tum”.

Com toda certeza, se não tivesse frequentado tanto a Rádio Mundial AM 860, quando ainda funcionava, na Av. Presidente Vargas, no vigésimo andar do prédio da Rádio Relógio Federal, eu não teria sido quem sou.

Respondendo objetivamente, eu diria que foi o mashup dos Beatles, com Big Boy e a Rádio Mundial, o meu primeiro impacto real com o som.

Bye bye, so long, farewell, crazy people! Yeah! Yeah! Yeah!

Sergio Vasconcellos é publicitário, produtor, compositor e radialista, premiado pela APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), por produzir e apresentar o melhor programa de webradio, do Brasil, em 2012.

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1 Comentários

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  • LUIZ CARLOS DUVANEL on

    FOI NUM BAILE DESTE NO GRAJAU COUNTRY QUE OUVI PELA PRIMEIRA VES, O HIT
    PAPA WAS A ROLLING STONES – THE TEMPTTATTIONS, QUE TRAGO COMIGO EM MINHAS MEMORIAS ATÉ HOJE,


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