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Band leader

Toninho_Lima

Desde o último ensaio da última banda em algum apartamento entre o Flamengo e Copacabana, tornei-me este triste e irreversível ex-músico.

Talvez fosse mais digno e honesto dizer que nunca cheguei a tocar nenhum instrumento com o que se pudesse considerar um talento especial.

Mas, sim, eu não só empunhava uma guitarra como ainda cantava e cheguei a liderar uma das bandas.

Eu, bem, eu compunha.

Sim, eu tinha um caderninho repleto de letras e cifras, com canções de minha própria lavra.

Juro.

Poxa, eu nasci e cresci com as vitrolinhas de todas as casas da vizinhança berrando iê, iê, iê.

Eram os Beatles lá e os caras da Jovem Guarda aqui.

Eram Stones, Mamas and the Papas, Credence, Lovin’ Spoonful, Herman Hermits, Monkees, Troggs, Hollies, umas dezenas de bandas que mexiam com os meus sentidos musicais.

Quando eu tirei Satisfaction no violão, virei quase um ídolo do recreio no colégio de freiras.

Logo eu estaria abusando da sorte e assumindo o contrabaixo na famosa banda – por poucos meses, é verdade – Os Filhos da Pauta.

Lembro que cheguei a ensaiar na casa de um colega de colégio que anos mais tarde se tornaria músico profissional.

Ele me ensinou a fazer o baixo de Satisfaction que ia numa escala contrária à do riff da guitarra do Keith.

Aquilo foi um deslumbramento.

Mais tarde vieram Doors, Steppenwolf, Emerson, Lake and Palmer, Yes, Pink Floyd.

E eu já estava absolutamente convencido de que aquilo ali era o meu mundo.

Pelo menos quando eu estava no meu quarto.

Pelo menos quando minha mãe não quebrava o encanto, batendo na porta.

Aí acabava a vibe, o clima, a inspiração.

Até hoje tenho certeza de que o John Lennon jamais seria o John Lennon se também tivesse que parar de compor e tocar para ir à farmácia da Rua Senador Vergueiro comprar absorvente para a irmã dele.

Toninho Lima
Supervisor de Criação da Artplan

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1 Comentários

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  • Ricardo Labuto Gondim on

    Toninho Lima, esse texto é música. Se não achar aquele caderninho, não esquente.


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