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Paixão eterna

Em 1974, o Brasil vivia em plena Ditadura Militar.

Neste mesmo ano, viajei pela primeira vez à Europa.

Tinha 21 anos e a viagem foi custeada por meus pais, a quem eternamente agradeço por me abrirem as portas do planeta.

O barato de viajar para a Europa naquela época, na minha idade, não era apenas se dar conta do deslumbre de uma civilização com História para contar, do respeito ao cidadão, da culinária, dos vinhos, dos museus, das livrarias, das obras de arte, das ruas limpas de andar sem medo, dos metrôs funcionais.

O melhor da viagem aos olhos de uma quase menino de 21 anos foi ver os filmes que a burra ditadura proibia no Brasil. A lista era imensa e vi todos.

Os que ficaram na memória: Laranja Mecânica, Fritz The Cat, Estado de Sítio, Z e O Último Tango em Paris.

Sobre este último, de Bertollucci, um sentimento interessante: achei um filme pesado, chato, lento, mas dois detalhes me extasiaram: a extensão triangular dos fartos (que saudade!!) pelos pubianos da Maria Schneider e a trilha.

Sai do filme levitando e com Gato Barbieri arrastando uma melodia eterna dentro de mim. Fui logo comprar o disco, que ainda não existia comercialmente. E assim, voltei à Europa várias vezes, sempre na esperança de voltar ao Brasil com a trilha do Último Tango. Nada.

Só fui encontrar tempos depois, num sebo na Saint Michel.

Comprei 3 CDs. Um está guardado e devidamente exportado a todos os meus computadores, iphones e ipads.

O segundo dei de presente a um amigo e o terceiro a uma quase namorada, que acabou gostando mais da trilha do que de mim. Nunca mais soube dela. Da quase namorada, claro.
Porque a trilha inesquecível ainda ouço com requintes de perfeição ao menor fechar de olhos.

Agora, por exemplo: enquanto escrevo, ela me toca deliciosamente.

José Guilherme Vereza
Sócio da 11:21

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1 Comentários

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  • Graça Taguti on

    Obrigada pela melódica viagem em tempos graves de ditadura e de corações verde-amarelos tão assustados, pipocando ideais acima Brasil abaixo. Senti o gostinho de quero mais nesta sua crônica, Zé. Quem sabe, ouvir de novo Gato Barbieri 🙂


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