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Qual a música que te move?

O km é o 41, a respiração está ofegante, a panturrilha direita dolorida, as passadas lentas e a mente desfocada. É quando o riff de Eye Of The Tiger começa a tocar. O que acontece em seguida é incrível. Como um botão que liberasse NOX no tanque de combustível, os fiozinhos brancos do ipod irrigam os ouvidos com ondas sonoras que invadem o corpo e, inexplicavelmente, impulsionam as pernas no ritmo certo e pronto, você completa a sua corrida do jeito que tinha planejado.

Quem corre, independente da distância, sabe muito bem a importância que a música tem durante a atividade, principalmente a diferença que ela pode fazer no momento crítico. E, ultimamente, meu maior contato com a música tem sido exatamente assim. Tênis amarrado e ipod ligado. Não importa a banda, o cantor ou o DJ que toca, aqui a questão é que som é capaz de movimentar o meu corpo e levar minha mente a uma zona com um pouco menos de desconforto.

No meu caso, rock, funk, remix com house, dance, hiphop e até trilhas de filmes funcionam muito bem. Conheço quem goste de correr ao som de Gustavo Lima e Você e pode acreditar, também funciona que nem Eye Of The Tiger. Só não toca em tantos ipods. A música que impulsionou o Rocky em seus treinamentos foi considerada uma das mais ouvidas por corredores em toda a história. E, apesar de clichê hoje em dia, continua motivando quem se atreve a dar as primeiras passadas, seja caminhando ou correndo.

Mas o que acontece no nosso corpo quando essas músicas começam a tocar é algo que a banda Survivor nunca imaginou quando criava o hino dos corredores. Os efeitos psicológicos e fisiológicos são vários: a nocão do tempo fica distorcida, os pensamentos negativos são afastados e a confiança aumenta. Você fica fora da realidade, como se estivesse protagonizando um clipe ou cena de filme. Sem contar que a música certa ajuda você entrar no ritmo. Músicas entre 120 e 140 bpm tem praticamente as mesmas batidas por minuto das passadas de um atleta no solo correndo a 12km/h. Com certeza você não vai pensar em tudo isso na hora, mas seu corpo vai sentir a diferença.

E o meu sentiu a diferença. Não ouvindo música, mas justamente quando não pude ouvir. Em maio de 2013 realizei o meu primeiro Ironman em Florianópolis. E para o meu espanto, 2 meses antes da prova, ao ler o regulamento, descobri que era proibido fazer a etapa de corrida utilizando qualquer MP3 Player. A organização considera doping mental e, por conta disso, proibe sua utilização em qualquer prova de Ironman no mundo. Concordando ou não, eu e outros 2.199 atletas inscritos não tiveram escolha em se separar de seus aparelhinhos. Mas as consequências do tópico 67 daquele regulamento só fui descobrir no dia da prova.

Depois de 7 horas e 20 minutos de natação e ciclismo, parti para a última etapa, 42km de corrida. A excitação nos primeiros minutos com amigos e torcida gritando passou mais rápido do que eu esperava. E em pouco tempo, os únicos sons que me acompanhavam eram os das passadas, respirações e escarradas de quem corria a minha volta.
“- Vamos lá. Você consegue.” Pensava eu.
“- Faltam só 32km, agora só 31.”

A verdade é que não tem jeito. Nenhum pensamento ou pessoa vai conseguir te motivar por tanto tempo como a música te motiva. A sensação de solidão só era quebrada quando passava rapidamente por algum conhecido. A bipolaridade de sentimentos e desejos era incontrolável. Se em um momento eu estava confiante, dois minutos depois já tinha as dúvidas se conseguiria completar. E foi assim, administrando o silêncio que continuei correndo.

E foi no km 41, já na reta final, que comecei a ouvir o som que tocava na linha de chegada. Não era Eye Of The Tiger, como citei no início. Para falar a verdade nem lembro que música era. Mas ela tinha as batidas por minuto das minhas passadas, era algo que quebrava todo aquele silêncio e cumpria muito bem o seu papel naquele momento. A respiração ofegante, a panturrilha direita dolorida, as passadas lentas e a mente desfocada, foram fácilmente regeneradas por aquele som. E exatamente como um doping mental, me impulsionou mais e mais forte até cruzar a linha de chegada.

Cadu Vigilia, redator e atualmente treinando para o 2º Ironman sem Ipod.

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