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Sem música tudo poderia ser um erro*

Eu tenho trilha para tudo.

Direciono boa parte do Transtorno Obsessivo Compulsivo nosso de cada dia nisto.

E assim fica mais leve.

Nesta onipresença sonora, eu que venho de uma família onde todos tocavam algum instrumento ou cantavam – uma espécie de Jackson Five caucasianos e sem talento. Ou para os mais antigos, Partridge Family (acho que no Brasil era Família DÓ-RÉ-MI).

Assim consegui emplacar algumas músicas por aí em discos dos outros, em novelas, em trilhas de filmes…

Foi tudo muito natural.

Mas sempre mais pelo prazer que pelo desempenho profissional. Ainda que receba alguma coisa de ECAD…

Aos poucos fui vendo que minha compulsão caminhava além das 7 notas musicais. Eu gosto de sons. Como sou velho, sou do tempo de conhecer ficha técnica de livros e discos. De notar quem fez as incidentais. De rir de filme com sonorização inadequada. E de dizer que o Danny Elfman é o Ennio Morricone da geração em curso.

Mas a verdade é que sou compulsivo mesmo.

Sou curioso. Ouço tudo.

Da banda de cool jazz da Etiópia a um trabalho de ska rock da Finlândia. Do conjunto de música antiga ou barroca a um tango pernosticamente moderno…

E esta compulsividade veio de um medo.

De ficar surdo. Aos 7 anos eu li com a professora um livro alemão que falava que o Beethoven tinha ficado surdo.

Neste medo de ficar surdo, eu resolvi ouvir o máximo de coisas, até as ruins, para que se ficasse surdo, não ficaria em silêncio. Minha memória auditiva é muito boa.

Palavra é prata.

Silêncio é ouro.

Música boa é mais que tudo isto.

E quem é sinestésico sabe que música tem cor, aroma e gosto….

Guto Graça é publicitário, escritor, poeta, jornalista e carioca

* O título é adaptado da frase clássica atribuída a Nietzsche

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