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Som Ambiente

Eram nove da manhã de sábado quando fui acordado pelo vizinho.

Ou melhor, pela furadeira do vizinho. Pular da cama com tamanho barulho não seria justificado nem se ele estivesse colocando um Van Gogh na parede da sala.

Liguei para o insensível. Sem sucesso. Nada naquele momento seria mais audível que a máquina da virilidade. Pensei em ir pessoalmente à porta do sujeito para solicitar, por obséquio, o desligamento do aparelho. Mas como não usaria tamanha educação no pedido, decidi sair de casa. Antes perder o sono que a paciência.

Fui para a rua em busca de paz. Mas logo de cara, o que ouço: um carro com o alarme nas alturas ao lado de uma viatura policial com a sirene ligada. Só conseguia pensar nos dois travando uma guerra para ver quem tinha o nível de decibéis maior.

Não tinha saída. Meu dia estava fadado ao stress e meu ouvido condenado à surdez. Decidi virar na primeira esquina e apostar numa praça perto dali. Aqueles banquinhos de madeira embaixo daquelas árvores com copas largas jamais me decepcionariam. Eu teria sombra e cuca fresca.

Quanto mais perto eu ficava da praça, mais as coisas se acalmavam. Avistei um banco vazio, do jeitinho que eu queria. A cada passo, o volume do silêncio aumentava. Bingo! Sentei calmamente, com a intenção de fazer cada segundo durar dois.

Mas aquele não era o meu dia, caro amigo. Justo a natureza, a quem confiei a solução dos meus problemas, me apunhalou nas costas. Naquela árvore, naquela bendita árvore, havia um grupo de cigarras em êxtase sexual. Os machos começaram a gritar para atrair as fêmeas e fazer o que todo mundo já sabe.

Parei, respirei e pensei: o vizinho ficou feliz pelo quadro, o guarda evitou um roubo e as cigarras deram futuro à espécie.

Melhor ouvir tudo isso do que ser surdo.

Sleyman Khodor
Redator da JWT

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