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Um sorriso estúpido

Alguns dos momentos mais gostosos da minha infância envolvem meus pais e os amigos deles. Eu adorava entrar no carro e ir para as festinhas dos adultos. Todos levavam os filhos e a brincadeira era garantida, mas não era isso que mais me empolgava. Com o passar das horas, a criançada ia dormir e eu vinha como quem não queria nada e sentava calado, perto dos mais velhos, tentando não chamar muita atenção. Acho que foi naquela época que desenvolvi o meu lado observador. Passava horas só ouvindo a conversa e conhecendo um pouco de Elis Regina, Nara Leão, Chico Buarque, Ney Matogrosso, Caetano Veloso e os Beatles. E conforme eles iam bebendo, a trilha sonora ficava mais eclética, sempre passando por Guantanamera e pela onipresente “Tá com pulga na cueca”, também conhecida como Pata Pata, da sul-africana Miriam Makeba.

Eu escutava de tudo e aprendi a gostar um pouco de cada coisa. Mas quando os Fab Four de Liverpool começavam a tocar, eu espichava um bocadinho mais o ouvido. Era como eu gostava de terminar as noites, até pegar no sono.

Em casa era a mesma coisa. Lembro, por exemplo, que o meu tio costumava mostrar orgulhoso o LP Rubber Soul, que ele chamava de “Homem de Borracha” e o meu sonho era ter um igual.

O meu carinho pelos Beatles sempre esteve presente mas, um dia, a paixão explodiu.

Era 1990 e a minha mãe deu a notícia de que iria me levar ao Maracanã para ver o Paul McCartney. Eu nem sabia o que pensar. O show era o acontecimento da década e todo mundo queria estar lá. Não estava muito certo do que esperar e nem tinha a noção do tamanho de tudo aquilo. Mas o fato é que eu estava empolgado.

Fomos no primeiro dia. Eu, minha mãe, algumas amigas dela e os filhos. Ficamos lá em cima, na arquibancada lotada, mas com uma visão ótima do palco. Depois de muita espera, o eterno multi-instrumentista e compositor dos Beatles entrou e a galera parecia não acreditar no que estava vendo. Ao meu lado, um homem na casa dos 60 anos, gritava, chorava e xingava o tempo todo

– “Pau nas carnes, seu desgraçado, vai se f*”.

Eu não entendia direito o que estava acontecendo, mas não pude deixar de notar o sorriso bobo, inocente e constante no rosto daquele homem.
Ali eu entendi o que significava a música de verdade. Pude sentir a energia de quase 200.000 pessoas e tudo o que aquelas canções significavam para elas.

Acabou o show, mas as imagens e, principalmente, as músicas ficaram na minha cabeça. Eu só conseguia pensar e falar sobre aquilo e, obviamente, sobrou para a minha brava mãe, cuja próxima missão foi me levar à Mesbla para comprar duas coletâneas dos Beatles. Comecei por LPs duplos, um vermelho e um azul com os quais iniciei um contato mais profundo com a história da banda. Mas a relação de amor só estava começando.

Um pouco depois fiz uma viagem para os EUA e voltei com um CD player. A tecnologia tinha acabado de ser lançada e os primeiros CDs da minha vida foram Please Please Me e With the Beatles. Foi quando ficou evidente uma outra característica minha, a de colecionar. Um a um, fui adquirindo e degustando os álbums. Sempre na ordem em que tinham sido originalmente lançados. Eu amava ainda mais aqueles caras e ia percebendo claramente as fases e a evolução deles.

Finalmente, cheguei ao Let it Be e o próximo passo foi caçar os CDs piratas, gravações inéditas, vídeos e tudo o mais que eu conseguisse encontrar.

Os Beatles já faziam parte da minha história. Cada momento importante da minha vida tinha uma música deles como marca.

Na faculdade de publicidade, a monografia foi sobre o marketing da banda. Conheci gente do fã clube, acumulei todo o tipo possível de tralha e, com o passar do tempo, mesmo com este fanatismo diminuindo, mantive a preferência inabalada.

Mas ainda tinha uma coisa que eu precisava fazer: voltar a um show do Paul McCartney. Agora eu era um “conhecedor” dos Beatles ou, pelo menos, achava que era. Mas, sem sombra de dúvidas, eu era um beatlemaníaco apaixonado e já podia entender com mais clareza a reação estranha daquele senhor que viu o primeiro show perto de mim.

E o Paul voltou. Anunciou dois shows em São Paulo e eu não perdi tempo. Comprei passagens, reservei hotel, garanti o ingresso e fui com tudo.
Era 2011. Vinte e um anos após a experiência que alterou toda a minha vida, eu estava em um show dele novamente. O Morumbi formigava de gente e não fiz questão alguma de ficar no gargarejo. O meu negócio era aproveitar o momento. Achei um clarão lá atrás e me preparei para simplesmente deixar fluir a emoção.

E quando soou o primeiro acorde, não aguentei. Chorei toda a saudade que eu havia sentido durante duas décadas. Pau nas carnes estava de volta, aquele fdp!

Dali até o final do show, foram 2 horas de êxtase. Chorei mais 3 vezes e tenho certeza de que fiquei o tempo todo com um sorriso estúpido na cara.

Foi lindo, inesquecível, mas quando acabou, senti que faltava alguma coisa. Algo não estava completo.

E, é claro, que Sir Paul não ia me decepcionar e marcou mais um show, agora para a minha terra, o Rio de Janeiro.

E agora eu sabia exatamente o que fazer para que a minha realização fosse total. Era hora de retribuir o presente que eu tinha ganho há tantos anos. Ela me levou no primeiro grande show da minha vida e era minha vez de convidá-la. Liguei para a minha mãe e não precisei falar nem duas palavras. Ela topou na hora.

Paul McCartney arrebentou de novo, eu chorei de novo, cantei de novo, sorri estupidamente de novo mas, desta vez, nada estava faltando. Lá estava a minha mãe, sorrindo, cantando e parecendo uma adolescente dos anos 60.

E a música, que sempre foi tão marcante em toda a minha história, estava ali, servindo de trilha sonora para um dos dias mais lindos que já vivi.

Gabriel Carvalho é diretor da EyeSea Solutions (Miami) e sócio da Scama (Rio de Janeiro)
gabriel@eyeseasolutions.com
www.eyeseasolutions.com

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